
|
 |
 |
 |
 |
| Balanço do seguro multirisco condomínio em 2004 |
| 16/2/2005 |
 |
| Desempenho baixo e um resultado ruim nos seguros de condomínios |
 |
O faturamento do seguro condomínio cresceu apenas 11, 70% no ano de 2004, limitando-se a acompanhar os 11,20% de elevação no custo da Construção Civil – SINAPI, divulgado pelo IBGE. No mesmo período, houve também retração no mercado imobiliário, com uma redução no volume de lançamentos de edifícios novos de cerca de 15% em relação a 2003, de acordo com dados do SECOVI.
Mesmo contando com este aumento na arrecadação de prêmios, as seguradoras experimentaram retração nos lucros operacionais. Isto porque o valor total dos sinistros indenizados cresceu 129,17% no mesmo período, elevando o índice de sinistralidade médio – relação entre prêmios pagos e sinistros indenizados - de 44% para 56%, segundo dados extraídos do SES – Sistema de Estatísticas da SUSEP.
As seguradoras possuem mecanismos que possibilitam o reajuste de tarifas com uma periodicidade mensal. No entanto, os esforços realizados pela indústria de seguros ao longo de 2004, para corrigir as distorções entre as tarifas e o índice de sinistralidade, mostraram-se ineficazes, pois, na grande maioria dos casos, a opção foi apenas pelo aumento de tarifas, e não pela seleção de risco, que exige um nível de sofisticação atuarial ainda ausente no mercado.
Destaques
Houve exceções nesse quadro, dentre as quais destaca-se a AGF Brasil Seguros, do grupo Allianz, que obteve uma redução de seu índice de sinistralidade de 48% em 2003 para 26% no ano seguinte, assumindo a primeira posição no ranking nacional, se considerado o critério de lucro industrial – prêmios ganhos menos sinistros retidos e despesas comerciais. A AGF arrecadou em 2004 um total de R$15.895.842,66 em prêmios de seguros multirisco condomínio, e de R$14.521.529,20 em prêmios ganhos, somando R$7.776.081,76 entre sinistros retidos e despesas comerciais. Ficou posicionada em quarto lugar no ranking geral.
Pode-se considerar como um resultado excepcional, pois além de reverter uma tendência do mercado, que seria a da elevação do índice, a subsidiária brasileira do grupo Allianz posicionou seu produto AGF Condomínio em relação às congêneres com uma sinistralidade de menos da metade dos 56% da média nacional, fruto de um trabalho que priorizou a análise do risco, dispensando o recurso de aumento tarifário, que se mostra ineficaz enquanto medida isolada.
Das quatro maiores seguradoras atuando no ramo, a Porto Seguro liderou as vendas em 2004, com R$19.226.125,09 de prêmios de seguros. A empresa amargou, porém, um resultado industrial negativo, já que os prêmios ganhos somaram apenas R$14.277.698,42 e os sinistros retidos mais despesas comerciais alcançaram R$15.136.171,96, não contabilizadas ainda as despesas administrativas. Uma grande base de corretores generalistas, e uma seleção de risco que deixa a desejar, contribuíram para esse resultado negativo, vinculado principalmente ao seu alto índice de sinistralidade, de 70%.
O segundo lugar coube à Maritima Seguros, com R$16.511.437,92 de prêmios de seguros e R$13.447.201,81 de prêmios ganhos. Com uma sinistralidade de 37%, ligeriamente superior à de 2003, a Maritima comprometeu do total arrecadado apenas R$9.716.997,63 com o pagamento sinistros retidos e despesas comerciais. Sua base de corretores também é expressiva, mas a Maritima conseguiu alinhar sua política de aceitação de riscos à uma base tarifária adequada.
A Mapfre Vera Cruz ocupou uma desconfortável quarta colocação no compreensivo condomínio, pois, inosbstante uma política de preços agressiva, não conseguiu elevar seu “market share”, nem obter lucro industrial na operação. Dona de uma arrecadação de prêmio de seguros de R$12.658.869,28 em 2004, a Mapfre Vera Cruz contabilizou R$9.394.229,48 de prêmios ganhos e R$10.285.899,26 de despesas comerciais mais sinistros retidos, com um resultado industrial negativo de quase 10%, frente a uma sinistralidade de 68%.
Soluções
As companhias seguradoras sabem como reverter esse quadro, de estagnação de vendas e de resultados negativos. Falta apenas disposição para enfrentar alguns desafios, entre os quais destaca-se a seleção de risco. Não se pode dispensar a vistoria prévia no imóvel, pois na inspeção podem ser detectados fatores agravantes, tais como fiação exposta, ausência de hidrantes, maquinário obsoleto e falta de conservação nas instalações prediais, além da existência de comércio em imóveis enquadrados como exclusivamente residenciais, a título de exemplo.
Outro ponto fundamental é a definição de coberturas compatíveis com o risco, iniciando-se pelo seguro de incêndio que, de acordo com a legislação vigente, deve ser tratado pelo valor de reposição do bem. Uma vez que os seguros são contratados a primeiro risco absoluto e faltam às seguradoras dados que permitam o levantamento do valor em risco do imóvel segurado, a sub-contratação é prática recorrente no mercado, tendo os clientes a opção por um dispêndio de prêmio desproporcional ao risco segurado, sem risco de penalidade.
Algumas seguradoras insistem em atacar com aumento de taxas, frente à elevação nos índices de sinistro. E seus clientes respondem com uma redução no valor das coberturas acessórias, de maior incidência nos sinistros, de forma a manter inalterada a contribuição de prêmios, ou mesmo migrando para a concorrência, sempre de braços abertos para clientes com baixo índice de utilização das coberturas. Medidas simples, como a ratificação da cobertura básica mediante vistoria prévia, e a fixação de coberturas acessórias em níveis adequados, já dariam resultado imediato à seguradoras.
O nível de sofisticação do mercado imobiliário exige também o lançamento de produtos compatíveis, considerando que o padrão das edificações mudou muito, com inovações tecnológicas e que resultam em um alto custo de reposição no caso de sinistro, tais como os edifícios inteligentes e as construções padrão AAA. Os condomínios de casas, com um perfil de risco diferenciado, respondem hoje por cerca de 15% do total de lançamentos no mercado, e necessitam de coberturas personalizadas. Áreas de lazer e serviços aos moradores são diferenciais presentes nesses empreendimentos, e demandam coberturas de seguro especiais, não atendidas nas apólices atuais.
As companhias que optam por canais de distribuição qualificados – corretores de seguros especialistas no segmento imobiliário – tendem a desempenhar uma performance muito melhor que suas concorrentes, nas quais aportam clientes de alto risco, na maioria das vezes recusados pelas empresas com uma política de seleção de risco consistente. Exceção feita às seguradoras que optam por manter tarifas deficitárias, que em algum momento, serão levadas a tomar medidas corretivas, tanto pelos acionistas, visando retomar o lucro, como pelo ressegurador, de forma a preservar a integridade do setor.
Crescimento
Enquanto a excelência na gestão de negócios parece estar longe dos departamentos técnicos da maioria das seguradoras que operam o produto compreensivo condomínio, percebe-se que em ramos onde há um volume maior de negócios, a preocupação com resultados mostra-se evidente, como é o caso do seguro de automóvel, onde os índices de sinistro são muito parecidos, e dificilmente chegam a comprometer o lucro. A pouca importância que o mercado dá ao seguro multirisco condomínio não é fruto da irrelevância deste produto, mas sim da falta de investimento da indústria de seguros nesse segmento.
Enquanto o seguro compreensivo condomínio, que engloba todos os tipos de imóveis, de residenciais a comerciais, faturou R$107.472.588,00 de prêmios de seguros em 2004, o seguro compreensivo residencial alcançou impressionantes R$590.406.134,00 no mesmo período, isto num país onde a cultura de seguro ainda é pouco difundida, e considera-se a contratação do seguro residencial uma exceção aos hábitos do consumidor de seguros brasileiro, que prefere ter seu carro segurado a garantir o imóvel onde reside.
Para se ter uma idéia da discrepância entre o faturamento do seguro condomínio e o residencial, a Itaú Seguros, líder em vendas deste último no ano passado, faturou R$146.495.076,86 com o seguro compreensivo residencial, contra apenas R$3.845.231,88 do seguro condomínio. A Porto Seguro, que mais vendeu multirisco condomínio em 2004, ocupa um modesto 8º lugar em vendas de seguros residenciais, com R$28.002.861,63 de faturamento em prêmios de seguros em 2004, mesmo contando com uma força de vendas eficiente e a possibilidade de venda cruzada com seu carro-chefe, o seguro de automóvel.
À generalizada negligência das seguradoras em exigir de fato a contratação do seguro compreensivo condomínio pelo valor em risco, soma-se a falta de criatividade do mercado em lançar produtos que atendam a necessidades dos consumidores. Se, de um lado, vende-se pouco seguro residencial no país, em se tratando de seguro condomínio, o potencial de vendas mostra-se quase que inexplorado. As empresas que ousarem investir no produto condomínio, e na excelência da gestão de risco, terão à sua disposição um mercado muito maior e mais lucrativo que o atualmente existente.
Nota: autorizado o uso, desde que indicado o autor e a empresa: Pedro Bento Carlos Neto, em nome de Shelter Corretora de Seguros Ltda. |
 |
|
|
|
 |
|