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Perspectivas para o Consumidor
4/1/2006
Seguro Auto em 2006
Nesse momento você deve estar se perguntando: o que devo esperar das seguradoras em 2006, para a renovação do seguro do meu carro? Isto porque, em 2005, você deve ter sentido na pele a ferocidade do mercado segurador, que tomou de seu orçamento familiar um naco bem maior do que nos anos anteriores. Estariam as seguradoras satisfeitas?

Como funciona o mercado

Vamos conhecer um pouco desse mercado. Hoje circulam cerca de 36 milhões de veículos no país, e apenas 9milhões estão segurados. Os 75% restantes foram rejeitados pelas seguradoras, que concentram suas atenções em um grupo restrito. A cada ano ingressam no mercado automobilístico cerca de 1,8mil veículos, na sua grande maioria já contando com seguro desde sua saída da concessionária.

Regra geral, a cada novo veículo segurado, outro é excluído do mercado de seguros, que muito pouco cresce, por conta dessa política de segregação de risco, que colide frontalmente com o conceito de mutualidade, onde todos contribuem com uma pequena quantia, a fim de socorrer as necessidades eventuais de cada integrante do grupo social. As seguradoras escolhem a dedo o que desejam segurar, e impõem as tarifas que lhes convém.

Porém, uma conta que não fecha, é que, apesar da total e absoluta liberdade das companhias de seguro em estabelecer sua política de aceitação e tarifas, o ramo Automóvel deu prejuízo às seguradoras em 2005. De cada 100 reais arrecadados em prêmios, 70 são utilizados para pagar sinistros, 20 remuneram os corretores, e mais 30 vão para as despesas administrativas. Sim, você fez a conta e ficou faltando 20 reais para receitas e despesas baterem. Pois então, o mercado consegue perder dinheiro, mesmo cobrando o quanto quer do consumidor.

O que leva às seguradoras a perder tanto dinheiro nesse segmento é uma conjunção de fatores, entre as quais destacamos: a inabilidade de seus técnicos em taxar riscos adequadamente, somada à vaidade de seus executivos, que disputam posições no ranking, em prejuízo dos resultados, apenas para aparecerem na mídia como cases de sucesso, e ao comportamento intolerante de seus acionistas, que desejam simultaneamente crescimento e lucro acima da capacidade do mercado, atuando com um imediatismo impróprio para este segmento da enconomia.

Cabe aquí um especial destaque à conduta predatória de algumas seguradoras, que possuem tarifas adequadas para seus produtos de varejo, mas não resistem à tentação de alavancar vendas operando seguro para frotas propositalmente no vermelho, ou investindo nos chamados grupos de afinidade, e para estes há a aplicação de uma tarifa desproporcional ao risco assumido. Nas apurações iniciais do ranking de vendas, todos ficam satisfeitos, mas quando os sinistros começam a aparecer, é um salve-se quem puder nessas companhias.

Exemplo comum dessa prática são os seguros gratuitos oferecidos pelas montadoras, ou apólices para funcionários de uma mesma empresa. Os clientes continuam os mesmos, os riscos continuam preservados em sua forma original, mas juntados num enorme bolo, esses agrupamentos seduzem as companhias com uma espécie de canto das sereias, e alcançam tarifas nocivas à saúde do mercado. Quem acaba pagando por essas excentricidades e aventuras, é o consumidor comum, uma vez que estes grupos reagem imediatamente a qualquer majoração de tarifas, e abandonam as incautas seguradoras no primeiro sinal de problemas, deixando um rastro de prejuízo, que é suportado por aqueles que funcionam como fiel escudeiro das seguradoras, os clientes fiéis à uma marca.

Imagine se este mercado fôsse controlado como o Seguro Saúde, onde as seguradoras são obrigadas a aplicar reajustes definidos pelo governo, e a atender todos os brasileiros, indistintamente. O retrato desse mercado é, de um lado, os consumidores ressentidos com a crescente elevação de suas tarifas, e o de seguradores, que conseguem perder dinheiro, de uma forma eficiente e continuada. Você, que está renovando seu seguro, ganhou uma classe de bônus por não ter utilizado sua apólice, seu veículo caiu de preço no mercado, a seguradora lhe prometeu fidelidade, mas na hora de renovar, o que vale é a nova tabela; a tabela do dia.

O que devo esperar, então?

Bem, respondendo à pergunta inicial, você poder ter uma certeza: nada satisfaz as seguradoras, na conjuntura atual. Não se reconhece um executivo nas grandes companhias, com visão no futuro, que tenha a coragem de assumir riscos e sabedoria para lidar com paradigmas. O que se vê é o imediatismo, a clausura nas experiências passadas, o medo de criar e de evoluir. Na visão de curta distância atual, nenhuma seguradora é capaz de reconhecer e premiar, de modo justo e proporcional, a fidelidade de seus clientes.

As seguradoras erram ao precificar seus produtos quase que exclusivamente com base no modelo do veículo, e não na experiência com seus clientes, a qual deveria ter uma representação muito mais significativa do que as características de um veículo. Afinal, quem é cuidadoso com um Ford Fiesta, também será com uma Vw Parati. Sabe-se que, para um mesmo cliente, e em uma mesma seguradora, a diferença de custo de seguro entre dois veículos com o mesmo valor de mercado chega a quase 500%.

As estatísticas são utilizadas de forma equivocada pelas companhias de seguro, que visualizam o risco tendo por parâmetro prioritário a experiência com o veículo, e não com seu usuário. O efeito prático desta visão distorcida é que o bom risco acaba pagando pelo mau risco. E o mau risco, uma minoria dentro do grupo segurado, continua pagando uma pequena fração daquilo que devia. A cada reação do mercado segurador à sua conduta, ele muda de veículo, e troca de companhia. Compra seu carro em nome de terceiros, e não deixa rastro de seu paradeiro. Sobra para você pagar.

As seguradoras não deveria cobrar dos bons consumidores pelos próprios erros. O resultado de sua incompetência deveria ser distribuído entre seus acionistas, e não entre seus clientes, notadamente aqueles que não usaram sua apólice. Pois se as companhias são livres para escolher aqueles que desejam como clientes, teria por obrigação ao menos manter as tarifas de seguro nas renovações, ou mesmo reduzí-las, como incentivo à fidelização. Nada disso é o que se vê. Na prática, o que se tem é uma renovação com desconto de 50%, mas numa tarifa 200% majorada. Ou melhor: um aumento de 50%.

O que fazer para se proteger?

O primeiro mandamento é: abandone a fidelidade com sua companhia de seguros. Prefira a fidelidade ao seu bolso. Segundo: confie ao seu corretor a tarefa de buscar alternativas. Terceiro: esqueça as marcas convencionais, aceite o novo. Afinal, se as companhias não conseguem distinguir você, dentro de sua massa de clientes, está na hora de mudar seus conceitos, e ser recebido de braços abertos pela concorrência.

Nota: autorizado o uso, desde que indicado o autor e a empresa: Pedro Bento Carlos Neto, em nome de Shelter Corretora de Seguros Ltda.
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